De edição datada de Março deste ano pela editora Assírio & Alvim, a obra intitulada Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, com introdução e versão de Jorge Sousa Braga.
Recuperados da sua escrita original- o sâncrico-, a disponibilização no mercado de um conjunto de poemas reveladoras da concepção do sexo na Índia Antiga, onde este não era considerado em oposição à espiritualidade. Sendo que ao acto sexual era atribuído um lugar de honra, a transposição do erotismo para escrita foi uma realidade, como aliás também o foi, no que respeita à sua representação em termos arquitectónicos, nomeadamente baixos-relevos em templos.
Desta compilação começamos por apresentar os "... outros poemas eróticos", num total de 15, reservando para posts posteriores a edição dos 50 "Poemas do amor furtivo".
A acompanhar estes trabalhos, obviamente, imagens do Kama Sutra.

1.
Esta mesma lua ilumina a minha amada
O vento acariciou já o seu rosto
A lua impregnou-se da sua beleza
E o vento do seu perfume
Quem ama de verdade pouco lhe basta
Para suportar a separação
Que ela e eu respiremos o mesmo ar
E que os nossos píes pisem o mesmo chão
2.
Suspiro por vê-la quando estamos separados
Anseio por abraçá-la quando a vejo
E quando abraço essa beleza de olhos rasgados
Fundir-me com ela é o meu único desejo
3.
Não pode o lótus florir de noite
Nem a lua brilhar durante o dia
Apenas o teu rosto
Consegue realizar essa magia

4.
A lua tenta todos os meses em vão
Captar a beleza do teu rosto
Descontente com o resultado
Destrói tudo e começa de novo
5.
Se a floresta negra dos seus cabelos
Te convida a explorar os vales
E os seios essas abruptas montanhas
Acordam o montanhista que há em ti
O melhor é parares antes que seja tarde
Escondido como se fosse um salteador
Jaz à espera o amor
6.
Embora não tenham limites as minhas conquistas
Para mim há apenas uma cidade
E nessa cidade um palácio
E nesse palácio um quarto
E nesse quarto uma cama
E nessa cama uma mulher
Adormecida
A jóia mais valiosa
De toda a minha coroa

7.
- Aonde vais na noite escura?
- Ao encontro daquele por quem o meu coração anseia
- E sendo formosa e jovem e insegura
não tens medo de ir sozinha?
- Sozinha? Não Armado de arco e de flechas
O amor faz-me companhia
8.
Quando verei de novo firmas as tuas coxas
Que em defesa se cerram uma contra a outra
Para depois se entreabrirem ao desejo obedientes
E aos cair do vestido de súbito revelarem
Como um selo de lacre sobre um segredo obscuro
Húmidas ainda as marcas das minhas unhas
9.
A beleza não está no que dizem as palavras
Mas no que dizem sem dizê-lo
Mais desejáveis são os seios entrevistos
Através das madeixas do teu cabelo

10.
Proibido completamente indecente...
Anseia no entanto o meu coração
Por essa rapariga adornada com
As flores vermelhas da primeira menstruação
11.
O desejo a impele ao encontro do amante
O receio a detém por um momento
Parece a seda de um estandarte
Que ora se abandona ora se furta ao vento
12.
As manchas vermelhas de betél
As negras marcas de aloés
O aroma dos cremes perfumados
As pegadas de laca
As flores caídas das suas tranças
Nos lençóis em desalinho
Deixam supor as diversas posições
Que adoptou a amada
Com o seu amante enquanto faziam amor

13.
Quando o meu amante se deitou ao meu lado
Por si só se desprendeu o meu cinto
E mal suspenso da cintura
O vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
Pois mal senti o contacto do seu corpo
De tudo me esqueci
De quem era ele
De quem era eu
De como foi o nosso prazer
14.
Esmagados contra o meu peito
Os seus seios estremecem Entre as suas
Coxas flui a seiva doce do amor
"Não outra vez não... Deixa-me descansar..."
E aos sussurros sucedem-se as súplicas
E às súplicas os suspiros
E aos suspiros o silêncio...
Terei adormecido? Estarei a agonizar?
Ou será que estou a sonhar?
15.
Neste vão e flutuante mundo
O que resta a um homem?
Pode dedicar-se à oração
Mas se isso porventura não resulta
O melhor é refugiar-se entre os seios duma mulher
Acariciar as suas coxas quentes
E possuir o que entre elas se oculta
[Jorge Sousa Braga (introd.)- OS CINQUENTA POEMAS DO AMOR FURTIVO E OUTROS POEMAS ERÓTICOS DA ÍNDIA ANTIGA]
pontual :) considerando as datas, acho q estes poemas mostram q regredimos... ou fomos vencidos pelos falsos moralistas.
Afixado por: TCA em junho 24, 2004 12:20 AMQuerida Sandra, esperava este teu post com alguma curiosidade, supera o que quer que seja que tenha imaginado, está simplesmente fantástico!! Os meus parabéns!! Muitos beijinhos
Afixado por: Maria em junho 24, 2004 12:21 AMTCA:
O que está em causa é que nós vivemos mergulhados e afogados na Moral Cristã (e Católica), onde a força da ideia do "Pecado" é uma realidade. É assim desde os 1ºs padres da Igreja (a Patrística confirma). Tal ideia está imensamente entranhada, para onde quer que nos voltemos, causando castrações e incapacidades de apreciação (artístico-cultural) da mais variada ordem.
Para mim o que aqui está não é Pornografia. Para mim, quer com esta poesia, quer com estas imagens, estamos perante, tão só, manifestações artísticas, culturais e de mentalidade (no âmbito da Sexualidade). A espiritualidade está igualmente muito presente.
É absolutamente lamentável quando se tem ideias redutoras que conspurcam aquilo que não o deve ser.
O teu comentário foi pertinente. Conto contigo, da mesma forma, nas edições de poesia posteriores que vou fazer.
:)***
Maria... só te digo uma coisa: aguarda o que para ai ainda vem.
Acho graça quando ficas assim ansiosa. Eheheheh...
:)***
Afixado por: Sandra em junho 24, 2004 12:43 AMg2...
Quem diria... só duas palavras: bem-aparecido!
Um anexo: volta! Eheheh...
O acto sexual foi visto desde os primórdios da humanidade como um acto sagrado. Era assim na Suméria, era assim na Índia como também nos povos nórdicos.
Só os povos de raiz judaica e concrectamente os muçulmanos e os cristãos( embora no iício não tenha sido) consideram o acto pecaminoso. É uma estupidez mas enfim.
dsfsdfsdfdsfsd
Afixado por: francisco em julho 1, 2004 01:51 AM