junho 19, 2004

O AMOR (EM 30 PÁGINAS)


(Fotografia de José Marafona)

(1º momento)

O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante da manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.


(2º momento)

Eram as trinta páginas mais importantes da minha vida. Ao escrever, tinha vivido. Eram trinta páginas que eram o meu amor todo e a minha esperança. Sentado à escrivaninha onde os anos passavam, olhávamo-nos muito: ela dentro de mim e o meu olhar dentro de mim, junto dela. O meu braço tremia e, com a esferográfica, escrevia em folhas brancas cada uma das palavras que a diziam. Ela sentia as palavras a tocarem-na. Ela fechava lentamente os olhos. E o tempo em que mantinha as pálpebras fechadas era tocar-me, era tocar o sol e, na pele, absorver toda a sua luz. Eu, que não podia ter nos braços aquela vida interior que era a minha vida toda, que não podia dar-lhe a mão, que não podia sequer passar-lhe os dedos devagar pelo rosto, fazia tudo isso escrevendo. Nas palavras escritas tocávamo-nos realmente. Como duas pessoas sobre a terra. Nas palavras, existiam os nossos olhares enternecidos. Dentro de cada uma das palavras, existiam mil palavras, e também cada uma dessas mil palavras tinha dentro de si mil palavras. E mesmo essas palavras que existiam dentro de outras palavras eram enormes, porque também elas tinhas dentro de si mil palavras que tinham dentro de si mil palavras. Nas palavras escritas, éramos possíveis. O nosso amor. Tudo. O mundo. Por isso, aquelas eram as trinta páginas mais importantes da minha vida.

(José Luís Peixoto- UMA CASA NA ESCURIDÃO)


Publicado por void em junho 19, 2004 12:02 AM
Comentários

Querida Sandra, li e (re)li, estas palavras, já não sei quantas vezes, e sempre que o faço, encontro-lhe algo de mais belo, de mais intenso... Esta é uma descrição das mais belas e perfeitas que tenho lido, desse sentimento, que nos faz viver, sonhar.. Que nos faz felizes... Um amor descrito em toda a sua amplitude e profundidade! Sublime!! Obrigada por me dares a conhecer este magnifico autor, que desconhecia... Um dia muito feliz para ti... Muitos beijinhos

Afixado por: Maria em junho 19, 2004 12:37 PM

Sim, Maria, excelentes extractos de um excelente romance (um pouco ou mesmo "gótico", eu diria).
Gosto muitíssimo do José Luís Peixoto. A sua escrita, em Poesia ou em Prosa, transporta-me... transporta-me... transporta-me.
Quanto à obra (mais) geral do autor, já falámos ontem. Agora, pela tua parte, é uma questão de acompanhamento.

:)***

Afixado por: Sandra em junho 19, 2004 01:32 PM