junho 16, 2004

À LEITURA DE...

FERREIRA GULLAR

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta.


A bomba suja

Introduzo na poesia
a palavra diarréia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

Por exemplo, a diarréia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.

É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.

É uma bomba-relógio
(e relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.

Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.

Bomba colocada nele
pelos séculos de fome
e que explode em diarréia
no corpo de quem não come.

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.

Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali,
que a fome do Piauí
se espelha de leste a oeste.

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.

Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.

Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.

Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.

Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.

E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma da fome
pela arma da esperança.


Coisas da terra

Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
onde este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.

Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.

São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes do trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.

Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.

(Poemas extraídos de: OBRA POÉTICA)


Publicado por void em junho 16, 2004 12:02 AM
Comentários

É muito bom acordar tao cedo e dar de cara com o nosso poeta e ler poemas tao lindos. Lilia

Afixado por: em junho 16, 2004 06:27 AM

Sem dúvida nenhuma que és a leitora de Gullar mais atenta. Fico feliz por isso se detectar também aqui no Void. :)**

Afixado por: Sandra em junho 16, 2004 06:34 AM

E eu, que também sou gente, gosto muito do Gullan! Até copiei um para o meu blog! eh eh eh... «chama-me doida, insana», etc., mas não me chames parva! Outro beijo!

Afixado por: PilantraX em junho 16, 2004 11:04 AM

Não conhecia este poeta, obrigada pela partilha.

Afixado por: fairy_morgaine em junho 16, 2004 11:54 AM

Pilantrax e Fairy-Morgaine: obrigada e um grande beijo. Tudo o que aqui está é para efeitos de partilha máxima, se daí poder advir prazer em termos de usufruto. É muito desejável, penso.

Afixado por: Sandra em junho 16, 2004 01:32 PM

Querida Sandra, obrigada por todas as tuas magnificas partilhas, vir aqui, é vir com a certeza de que quando sair, irei muito mais rica!! Muitos beijinhos

Afixado por: Maria em junho 16, 2004 05:39 PM

Maria, Maria...
o enriquecimento será ainda maior se a troca de ideias e sentimentos provocados se der de forma saudável, tranquila e sem que quem que seja se assuma/posicione como arauto da Verdade (ou da verdade única).
No caso específico da poesia de Gullar (poeta brasileiro de relevância reconhecida),
a matéria para discussão/debate é substancial e rica no que a conteúdo concerne. Com este poeta muito se pode aprender, muitas opiniões podem ser trocadas, muito de individual pode ser dado em prol de questões efectivamente importantes: para nós, como seres humanos e por nós, neste mundo onde vivemos.
:)***

Afixado por: Sandra em junho 16, 2004 06:43 PM

Nossa!!! Vim parar aqui via google, procurando "Las Von trier relaçoes humanas".
Adorei isso aqui, tem um clima estranho, acho que o templates dá um ar meio sombrio, ainda mais se olharmos as fotos li abaixo, do Joseph Angilella-Auquier, lindas imagens. Voltarei outra hora.

Afixado por: Miss lexotan 6mg em junho 21, 2004 12:26 PM

Nossa!!! Vim parar aqui via google, procurando "Las Von trier relaçoes humanas".
Adorei isso aqui, tem um clima estranho, acho que o templates dá um ar meio sombrio, ainda mais se olharmos as fotos li abaixo, do Joseph Angilella-Auquier, lindas imagens. Voltarei outra hora.

Afixado por: Miss lexotan 6mg em junho 21, 2004 12:26 PM