junho 15, 2004

DO PINTOR E DA PINTURA


(José Saramago)

(1º excerto/1º momento)

Mal vai porém ao pintor, ou dizendo mais rigorosamente, pior vai porém ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto lançou na tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este satisfaz, mas ao pintor não. Creio que isto acontece na maior parte dos casos, mas, porque a semelhança lisonjeia e justifica o pagamento, o modelo transporta para casa aquela sua imagem supostamente ideal e o pintor suspira de alívio, liberto da assombração irónica que lhe estava queimando as noites e os dias. Quando o quadro já pronto se demora, é como se girasse no seu eixo vertical e virasse para o pintor os olhos acusativos: poderia chamar-se-lhe fantasma se não tivesse ficado já dito que é assombração. Em geral, o pintor, se sabe do ofício o bastante, reconhece que segue caminho errado logo ao primeiro esboço. Mas porque daria muito trabalho explicar ao modelo esse erro, e porque o modelo quase sempre se agrada de si mesmo logo de entrada, receoso de que outro curso e outro apanhamento de si o mostrem sob menos favorável luz, ou, pelo contrário, o voltem de dentro para fora, em dedo de luva (...), o retrato continua a deixar-se pintar, cada vez menos necessário. É como se (...) se estabelecesse entre o pintor e o modelo uma cumplicidade para a destruição do retrato (...). A morte, quando tirar do mundo o pintor e o modelo; o incêndio, se por feliz acaso reduzir o retrato a cinzas- apagarão alguma mentira e deixarão o lugar vago para outras tentativas e para um novo bailado, para o novo pas-de-deux que inevitavelmente outros recomeçarão.


(2º excerto/2º momento)

Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste acto: na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida, ao passo que os quadros, fechados em si mesmos, repelem, são eles próprios isolados na sua pele, autoritários, e, também eles, insolentes.

(José Saramago- MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA)

[Dedico este post a uma amiga pintora. Ela merece. Sandra]


Publicado por void em junho 15, 2004 12:02 AM
Comentários

Gostei particularmente, da insolencia do quadro: é assim mesmo! Não reconhece nada: autor, modelo, escola, fase, música. Empanca, fica ali e a gente que vá à vida!
Os quadros são como os gatos, não são de ninguèm. E todos os pintores anseiam por um cão que nunca vão encontrar!
beijo grande

Afixado por: PilantraX em junho 15, 2004 01:39 AM

Como poderás imaginar a tua opinião para mim, sobre estes excertos, era particularmente importante. E éra-o porque és uma pessoa que anda com as mãos na massa, passando e vivendo pelas vertentes que o escritor aqui apresenta. Para mim era significativo ver/perceber até onde se equivaliam os teus sentimentos/sentires face à tela e mesmo após a finalização do trabalho em si elaborado.
Muito bem, correspondes-te! Mas muito mais pode ser dito. Conto apresentar mais excertos deste "Manual" e continuo, neste percurso, a apostar no teu contributo.
:)***

Afixado por: Sandra em junho 15, 2004 06:44 AM

Lindo.. nunca tinha lido Saramago e achei genial.

Afixado por: fairy_morgaine em junho 16, 2004 11:57 AM