junho 13, 2004

CENAS HUMANAS

Olho para a Nossa Senhora fluorescente na mesinha de cabeceira. Uma miniatura sagrada esquecida. Uma luz que me faz sentir feliz. O meu corpo é empurrado bruscamente para a frente. Agarro-me aos lençóis da cama, a pressão é violenta, tento deitar-me de barriga para baixo, mordo a almofada, um movimento exaltado a bater-me nas nádegas, humidade, pele a chapinhar na pele. O meu corpo a bater no chão, ao lado da cama. A figura sagrada a luzir em muitas direcções. Tapo-me com uma ponta do lençol, cubro os seios por pudor. É nestes momentos que sentimos apagar-se uma luz qualquer sobre as nossas vidas. O chão encerado a devolver um rascunho da minha imagem. Fiz um esforço para olhar para cima, a superfície da cama ficava a uma altura tormentosa, consegui ver uma perna ossuda a enrolar-se no lençol, o som do colchão a aceitar a comodidade do corpo dele, respirações convulsivas a fazerem o registo da situação. Sentia uma mão húmida a sangrar, um fragmento de Nossa Senhora a iluminar a minha pele. Olhei para as minhas cuecas rotas, lassas entre as pernas, manchas magoadas de vermelho nas coxas. E depois havia aquela paz que escorre do silêncio, uma espécie de suspensão, vazio luminoso, talvez um caminhar à deriva pela própria consciência, uma sala povoada de imagens familiares, nunca felizes, como se algumas sementes de felicidade se transformassem em bagos venenosos, mas mesmo assim comestíveis. Ali estava o meu homem, estilhaçado de ódio sobre a cama, doente do seu tesão, a acumular-se de argumentos para a defesa dos seus próprios actos, provavelmente a delirar silenciosamente na cegueira das suas emoções. Possuía o rosto duro das pedras afiadas e impulsivas, um rosto que se apresentava como um depósito de explosivos. Nenhuma palavra como mensagem artificiosa, apenas o silêncio a servir de guarda-roupa ao meu sofrimento. Tentei erguer-me sem fazer ruído e gatinhei dorida até à porta do quarto. A sensação que tive foi como se desligasse o interruptor num aparelho onde passasse um fragmento incompreensível da minha vida. É incrível como a dor que sentimos nestes momentos só tem reais consequências com a autorização do tempo. É " ele " que nos faz consultar as folhas da nossa vida e nos obriga a pôr o destino em dia.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[O primeiro exemplo aqui editado em como o Fernando é o tal escritor "feminino". Sandra]

Publicado por void em junho 13, 2004 11:03 AM
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