junho 12, 2004

DIÁLOGOS

Coragem

não tenho coragem. o amor não me dá coragem. é uma armadilha atenta. tenho um labirinto de vidas a construir-se sobre pensamentos movediços. hoje não existe escrita. só este esforço terrível de dizer que não tenho coragem. o amor perturba. o amor como ideia de alguém distante. silencioso. vou tentar. é preciso tirar todo o amor às palavras. não posso tocar o corpo que a palavra escreve. o teu corpo sentado num banco de jardim. vens? um dia. haverá um dia como uma página perdida entre as tuas lágrimas. quase sinto a tua dor que espera impaciente para devorar o meu coração. tenho cuidado. levo muito tempo para escrever o nada que avança no futuro. esta incerteza de alguém esperar por nós no fim de cada frase. posso estar a falar de coisas perdidas e sem luz. a solidão, podes pensar. o desespero que nos leva a abandonar também as palavras. as pessoas. quero também dizer as pessoas. as que nos lêem neste vazio vertiginoso. isto é um livro, o amor. um livro que se ama a si próprio e que se destrói em todos os sentidos da vida. como posso amar diante do que não existe? a vida tem esta vulgaridade. angustiante. como posso escrever no medo que vigia a escrita? olhos violentos a acender fogos e gritos no pensamento. esta casa é silenciosa. esquecida e infeliz. escrevo tudo nesta casa, como sinto tudo neste amor de viver fechado. perdi a coragem nos lugares inocentes desta casa. nunca fui capaz de partir.

(ele)

Esperar-te-ei

ouve-me: partirás. um dia partirás. um belo dia demasiado intenso para sobreviver em tamanha realidade. mas acredita em mim. ouve-me: partirás. acredita porque eu acredito. e quando acreditamos a tela nasce no esplendor de sua inspiração efémera e única. tu és único. nós somos únicos pois, depois de tantas palavras, existirão palavras que ainda não foram pronunciadas. eu dir-tas-ei como quem enche o coração de cerejas rubras e lábios pintados, como quem abraça o vento sem olhar ao que não pode ser feito e como quem esculpe, apalpando as teclas do piano resplandecente e como quem acompanha os passos da alma, nas sombras desvairadas da noite estival. eu esperar-te-ei na essência de meu solitário ser e todo os segundos em que eu suspirei por ti, transformar-se-ão em promessas cumpridas, em sonhos realizados, em sorrisos pela 1ª vez desenhados a cor-de-verdade porque será verdade, será real, será o dia, o presente, o imbatível e o insuperável hoje e é maravilhoso escrevê-lo, agora, porque nunca mais poderá ser escrito no futuro.
venço-te com minhas asas de cristal e abro-te a janela. deixa o sol entrar nessa casa fechada a palavras. deixa-me sorrir-te e oferecer-te um par de asas corajosas. talvez não as minhas, mas porque não as tuas? neste momento, quero que me ouças. ouças além destas palavras silenciosas. ouças e compreendas: partirás. um dia partirás. um dia repleto de sol. e eu esperar-te-ei.

(ela)

[Textos de dois amigos do Void que partilham, também, o prazer pela escrita e o fazem sobressair num trabalho conjunto de indiscutível particularidade e imensa qualidade. Edição original em MEMÓRIA FUTURA. Complemento visual: fotografias de José Marafona]

Publicado por void em junho 12, 2004 06:38 AM
Comentários

Sou condómino desse teu amor
Escrito na vanguarda dos meus jardins
E trevo doente de ausente calor
Murmurando o amanhecer de meus fins;
E síndico desse teu cobertor
Sou vilão homónimo do motim
Desse guernica azul devaneado
Como a utopia do meu pecado.


albertovelasquez.blogspot.com

Afixado por: Velasquez em junho 12, 2004 08:33 AM

Inquilinos do amor e ela a dar-lhe coragem e a oferecer-lhe as próprias asas (as dele). Lindos textos que foram um prazer ler. Beijo.

Afixado por: PinK Lady em junho 12, 2004 08:56 AM

Velasquez: obrigada por estes teus versos (e consequente poema). a leitura das tuas produções pauta-se sempre por uma grande agradabilidade.

Pink Lady: concordo contigo. de facto, dois textos muito bem conseguidos, quer a nível individual, quer a nível sequêncial. um diálogo (+ diálogos interiores simultâneos) de grande qualidade: beleza literária tradutora de beleza emocional, naquilo que esta tem a ver com vontades, desejos, disponibilidades, compreensões e capacidade de espera. um belo retrato, também, da ilusão. ainda: a existência do subtil, da alusão, do deixar de liberdade para sentir e pensar.
obrigada pela tua participação :)**
quanto ao teu Templo: espectacular- pelos textos e pela música.

Afixado por: Sandra em junho 12, 2004 09:24 AM

POrque aqui encontrei momentos de puro prazer de leitura...um navegar interior de extrema beleza...beijo

Afixado por: salatia em junho 12, 2004 02:40 PM

Salatia:
que esses momentos continuem a ser uma realidade daqui para a frente. se assim for, é sinal que voltas a este espaço e que o Void continua a cumprir os seus objectivos.
obrigada :)

Afixado por: Sandra em junho 12, 2004 03:02 PM

Bem, há frases neste texto que davam livros e livros de filosofia sobre o amor... e no entanto (ou talvez por isso mesmo) de uma simplicidade notável! Fantástico!

Afixado por: Assumida Mente em junho 12, 2004 10:52 PM

Sem dúvida Assumida Mente. Sem dúvida. Surpresa agradável ver-te por aqui.
Volta!

:)**

Afixado por: Sandra em junho 13, 2004 07:05 AM