maio 29, 2004

MENTIROSOS


(Fotografia de Bruno Espadana)

e depois o homem entrou no meu quarto e disse-me: queres mexer? e mostrou uma mão cheia de dinheiro a ranger de ódio na minha inocência. eu queria o dinheiro. eu desejava que o homem explodisse com a força da minha vergonha. queres mexer-me no sexo? eu não digo a ninguém. podes fechar os olhos, se quiseres. podes beijá-lo, se queres. não havia ninguém. eu ia dormir no quarto. os pais dormiam. o homem estava acordado e tinha bebido. estava nu e sujo de sexo. tinha-se masturbado. estava sujo e a pingar. podes ter este dinheiro todo. posso ter este ódio todo. a minha vida estava amordaçada naquelas palavras. fazer o homem feliz. fazê-lo vir-se na minha mão. eu estava sentada na cama. tinha medo da cama. o sono era um medo a lutar comigo na minha mente. pedi ajuda ao silêncio. silêncio toma conta de mim. protege-me de ouvir mais uma palavra. o homem não parava de falar. sexo mão boca tesão beijo. o quarto andava à roda das pessoas que dormiam. as portas eram paredes negras e fechadas pelas palavras. o dinheiro é teu. guarda-o. mexe no meu sexo. e depois o silêncio eram palavras apagadas pelo meu pensamento. o homem não podia estar ali a insistir num desejo só para ele. já não gosto das pessoas. o homem fez-me não gostar de ser desejada. não quero que digam amo-te. mentirosos. eu olhei aquele sexo sujo e insistente durante muito tempo. toda a vida o mesmo sexo a pedir para ser tocado. friccionado. estimulado. eu podia tê-lo beijado. talvez o mundo não soubesse. talvez eu aceitasse o dinheiro com prazer. eu e o homem no quarto escuro. não digas a ninguém. mas o silêncio conhece esta história. eu disse que sim com o silêncio dos meus olhos. não conto a ninguém. nem aos pais que dormem num tempo separado do meu.

(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)


Publicado por void em maio 29, 2004 05:21 PM
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