
(Kafka)
Na verdade tinhas tantas vezes razão contra mim que era surpreendente; nada mais natural quando isso se passava em palavras, porque raras vezes íamos até à conversação, mas tinhas razão até nos factos. Contudo, não havia, também neste caso, nada de especialmente incompreensível: estava pesadamente comprimido por ti em tudo o que se referia ao meu pensamento, mesmo e sobretudo onde ele não se ajustava ao teu. O teu juízo negativo pesava desde início sobre todas as minhas ideias independentes de ti na aparência; era quase impossível suportá-lo até ao remate total e duradouro da ideia. Aqui, não falo de não sei que ideias superiores, mas de pequenos casos infantis, seja ele qual for. Bastava simplesmente estar feliz a propósito de coisa qualquer, de estar pleno, de voltar para casa e dizê-lo, e recebia-se à guisa de resposta um sorriso irónico, um maneio de cabeça, um bater de dedos em cima da mesa (...). Não será necessário dizer que não te podíamos pedir entusiasmo por cada uma das nossas bagatelas infantis, enquanto estavas mergulhado em preocupações e desgostos. Aliás não se tratava disso. O importante é antes que, em virtude da tua natureza oposta à minha, e por princípio, eras sempre levado a preparar decepções deste género à criança, que a oposição se agravava constantemente graças à acumulação do material, que se manifestava por hábito, mesmo quando eras por acaso da minha opinião e que a tua pessoa fazia autoridade em tudo, as decepções da criança não eram decepções da vida corrente, mas iam direitas ao coração. A coragem, o espírito de decisão, a confiança, a alegria de fazer tal ou tal coisa não podiam ir até ao fim quando te opunhas ou até quando se podia suspeitar da tua hostilidade: e esta suposição, podia tê-la a propósito de quase tudo o que eu empreendia.
Isso aplicava-se tanto às ideias como às pessoas. Bastava-te que alguém me inspirasse algum interesse (...) para intervires brutalmente pela injúria, a calúnia, as falas aviltantes, sem a menor consideração pela minha afeição e sem respeito pelo meu juízo. Seres inocentes e infantis foram obrigados a padecer.
(Kafka- CARTA AO PAI)