
(Fotografia de Alberto Monteiro)
É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido, e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais, por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. (...)
O método que aqui defino confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)
Publicado por void em maio 24, 2004 06:52 AM