maio 21, 2004

AMOR EM VERMELHO


(Fotografia de Christian Coigny)

Juan, ainda cansado, e suado, disse a Irene:
- Acho que deveríamos experimentar algo novo, não sei, tentar outras experiências que nos impeçam de cair na rotina...
Depois de dois segundos de um silêncio premeditado, Irene procurou- e encontrou- com um olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão...
- Eu acho que não corremos esse risco, que somos uma parelha divertida, ou será que já te cansaste de mim?
Juan engoliu saliva e deixou-se hipnotizar, uma vez mais, pelo verniz de unhas de Irene. “É tão verde como a erva”, pensou e calou.
- Nunca me cansarei de ti... muito pelo contrário. Tenho medo de que tu o faças. Temo-o...
Irene arqueou as sobrancelhas como uma malvada preceptora suiça de conto infantil- animação de produção japonesa.
- Enquanto me aguentares, não temas nada.
- Aguentarei tudo- disse Juan. Mentia, o coração latia assustado, recordando outros momentos similares, próximos no tempo.
- Poderias aguentá-lo hoje?- perguntou Irene, entregue de novo ao jogo.
Juan engoliu saliva, mas já não se deixou hipnotizar pelo verniz verde-erva das suas unhas.
- Acho que sim...- respondeu sem convicção.
E foderam de novo, até que ela disse basta.
Então, meio asfixiada, satisfeita, bêbada de adrenalina, procurou- e encontrou- com aquele olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão e o sangue de Juan correndo em direcção à porta. Decepcionada, abandonou o apartamento sem dizer adeus.
E decidiu não voltar a utilizar esse verde para as unhas, nem esse corpete de couro que lhe assava o peito, nem umas facas tão rudimentares, nem um apartamento tão fatela. E decidiu também Sandra não voltar a chamar-se Irene, nem procurar os seus amantes em bares de beira de estrada.

(Salvador Gutiérrez Solís- texto publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)


Publicado por void em maio 21, 2004 07:15 AM
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