abril 25, 2004

SEXO ENTRE MENTIRAS- 6


(Fotografia de Mel Figueiredo)

A noite estava reservada a uma sessão de sexo. Instalados na sala, com a atenção fixa numa série que passava na televisão, raramente se olhavam ou dirigiam a palavra um ao outro a comentar qualquer assunto. Não havia um sinal que denunciasse que daí a pouco tempo se iniciaria um programa sexual entre os dois. Nada fazia prever que eles eram um casal apaixonado. Nenhum acto de conquista de parte a parte ilustrava um ambiente amoroso e sensual. É precisamente isso que acontece aos casais que sobrevivem numa relação duradoura e contaminada por rotinas emocionais. O planeamento sexual num casal com estas características é uma ideia inevitavelmente inteligente e benéfica do ponto de vista da ruptura. Deixando para trás os tempos de juventude em que um simples olhar era apontado como um precoce orgasmo; agora o facto de pensarem em sexo, fazendo contas no calendário do desejo mútuo (desejo cada vez menos coincidente entre ambos), deixava-os num à vontade relaxante, livre de todo o tipo de encenação erótica. Em vez de sexo espontâneo e atemporal, a prática do amor é orientada pelas regras da obrigatoriedade sexual. Mas não se pense que existe uma impostura do desejo que prevalece sobre o companheiro. O sexo nestes termos é adoptado como um comportamento de defesa. O sexo programado funciona como um filtro que protege do desgaste e do massacre emocional. Os dias em que não há actividade sexual são os mais intensamente sensuais e cheios de imagens renovadas. É nesses dias que se ensaia a pornografia doméstica que se põe em prática de acordo com a fantasia de cada um. O sexo programado é a garantia do corpo infalivelmente presente; mas também garante a frieza e o amor distante. Na sala ou no quarto, eles haveriam mais uma vez de comprovar as mentiras que o sexo impõe.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[Mais um retrato interessantíssimo da vida real. Mais um daqueles que o autor escreve com muitíssima qualidade. Com reconhecimento, Sandra]

Publicado por void em abril 25, 2004 04:05 PM
Comentários