abril 15, 2004

ROSTOS


(Fotografia de Sérgio Rodrigo)

Acontece por vezes não encontrar um olhar
que sirva de depósito para os meus sentimentos.
Um rosto que aguardasse o tempo obscuro da minha vida.
Ou um campo corporal que resgatasse o que é verdade nos meus actos.
Escuto sempre o movimento de alguém a gotejar na minha direcção,
como se as palavras que indicam os seus passos enlouquecidos
não encontrassem o meu coração.
Porque há palavras que se perdem na forma de as pensar.
E porque um olhar sem distância é a cegueira natural da humanidade.
Rostos exaustivos, granulados em consequência da proximidade da alma.
O meu olhar homicida a justificar uma falta de vida.
Como se eu me transformasse num animal parecido com os olhos de quem escrevo.
Um animal cego que transporta o perfume de uma palavra no interior do teu olhar.

(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)

[O nosso trabalho conjunto continua, Fernando. Mais uma produção tua. Beijo. Sandra]


Publicado por void em abril 15, 2004 02:59 PM
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