março 31, 2004

ESCREVO NO CORPO DELA

O corpo dela é uma página em branco estendida na minha frente. Branca,
inerte, sem oposição, sem luta, sem ódios, sem traços, sem marcas do tempo
nem passado, à espera dum tempo que marque com traços de fogo, cicatrizes de sangue o rasto da minha caneta.
A minha mão pega na caneta e treme. Treme de fúria, de força e vigor, de
ânsia e de incertezas. Treme, mas escreve. Escreve como se traçasse caminhos
num espaço vazio de sombras, com se rasgasse montanhas e vales na escuridão dos desejos por realizar, das esperanças prometidas, dos projectos
guardados, do amor contido dentro da alma que deseja e sofre.
Escrevo e a caneta é lâmina marcando na sua pele sedosa caracteres pessoais
que só eu entendo, que só eu sei o que dizem, que só eu sei o que significam. Caracteres indecifráveis a quem não ama, a quem nunca amou com
paixão.
Contorno com a minha mão as formas do seu corpo com curvas de desejo
rasgando sentidos e escrevo na sua carne a força da minha carne. Escrevo a
realidade em retalhos de sonho e pedaços de sexo e hesito naquilo que
escrevo primeiro. Sonho ou sexo? Sem saber o que me move com mais força,
mais pressa, mais urgência. Sem saber o que vem primeiro, o sonho o sexo o
amor? Ou será o sonho, a paixão, o amor e sexo? Não importa!... não importa
o que escrevo, nem porque escrevo, nem para quem escrevo. Escrevo. Com os
meus lábios desenho o desejo no corpo dela, nos lábios dela que se estendem
e oferecem aos meus lábios, aos meus dedos, à minha caneta que os escreve.
Escrevo o meu corpo no corpo dela como prensa que imprime um texto indelével que o tempo
não apagará.
Escrevo no seu corpo a minhas paixões, as minhas vaidades, as minhas volúpias,
os meus erros, os meus medos, as minhas ânsias a máscara da vida e da morte, antes que morte me interrompa,
e a escrita inacabada deixe o texto na escuridão da noite que se consome no tempo do espaço vazio.
Escrevo nos seus olhos o brilho da luz que me alumia o caminho que não sei
percorrer na noite sem escrever. Escrevo como quem percorre a casa ligando
as lâmpadas, abrindo as portas, estendendo tapetes para que o vento empurre
a alma, liberte o corpo
e deixe o espírito vaguear no espaço sem limite, e o
sonho correr para lá do horizonte, para lá do possível.
Na sua boca escrevo as palavras sentidas, deixadas cair em momentos de
paixão sem controle, em que o sangue nos corre nas veias fervendo, queimando os sentidos. Escrevo os silêncios. Escrevo o vento, companheiro da nossa aventura, porta-voz do nosso sofrimento.
Escrevo as palavras que ela não pediu, que a fazem sofrer porque as cala
dentro de si sem resposta, tapando as feridas com a gaze da existência
conformada.
Escrevo no seu ventre inchado a semente que continuará a nossa existência
como prémio duma paciência muda e resignada, um objectivo, uma obra que
também é dela, e que eu não posso reclamar só para mim.

(João Norte- INTRO.VERTIDO)

[Texto do meu amigo João, companheiro do gosto pela escrita- com a diferença que escreve- que aqui trago, pelo merecimento de divulgação da sua Prosa (ou "Prosa póetica"). Obrigada pela autorização de (re)edição.]

Publicado por void em março 31, 2004 09:05 AM
Comentários

João como sempre um optimo texto e gostei especialmente deste.:)*

Afixado por: Ana em março 31, 2004 09:47 AM

A alma na escrita como nos habituou.

Afixado por: Marta em março 31, 2004 09:59 AM