
(Soren Kierkegaard)
O homem que desespera tem um motivo de desespero, como por um breve momento se pensa; mas logo depois surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Ao desesperar duma coisa, no fundo, o homem desespera de si e, em seguida, quer libertar-se do seu eu. Assim, quando o ambicioso que diz "Ser César ou nada" não consegue ser César, desespera. É por não se ter tornado César que já não suporta ser ele próprio. Mas, no fundo, não é bem por não se ter tornado César que desespera, mas sim por não se ter tornado nesse eu.
Esse mesmo eu, que doutro modo teria motivado todo o seu júbilo- júbilo esse contudo não menos desesperado- ei-lo agora a coisa mais insuportável! Analisando o sujeito mais de perto, não é o facto de não se ter tornado César que lhe é insuportável, mas o facto de o eu não se ter tornado César; melhor dizendo, o que ele não suporta é não poder libertar-se do seu eu. Tê-lo-ia podido, tornando-se César, mas tal não sucedeu, e o nosso desesperado permanece insatisfeito.
...
O desespero será uma superioridade ou uma limitação? Uma coisa e outra, em pura dialéctica. A só considerarmos a ideia abstracta, sem pensar num caso determinado, deveríamos julgá-lo uma enorme superioridade. Sofrer dum mal destes coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue dele muito mais do que caminhar em pé, sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime. (...) Assim, há uma infinita superioridade em poder desesperar e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como a nossa perdição. (...) O desespero é a discordância interna duma síntese cuja relação diz respeito a si próprias. Mas a síntese não é a discordância, é apenas a sua possibilidade, ou então a sua implicação. (...) O desespero está portanto em nós; mas se não fossemos uma síntese, não poderíamos desesperar (...).
(Soren Kierkegaard- DESESPERO- A DOENÇA MORTAL)
Publicado por void em março 17, 2004 06:31 PM