
(Manuel Alegre)
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços, são como o vento
Ninguém os pode amarrar
Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Seu coração- um navio
Meu amor disse que eu tinha
Na boca, um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos, e a liberdade
Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira
Eu vivo, lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia, hei-de voltar
Às águas dos nossos rios
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Assim falou, meu amor
Assim falou-me ele um dia
Desde então, eu vivo à espera
Que volte... como dizia!
(Poema de Manuel Alegre, cantado por Amália Rodrigues.
O nosso imenso agradecimento à Valéria Mendez que dele nos deu conhecimento, sempre, com a sua dedicação e carinho ao que é/foi cantado por Amália.)
O Manuel Alegre fez um poema sobre o Figo.
É muito grave esquecer isso.
Corria a Primavera Marcelista, quando Amália editou pela primeira vez este poema,num single,ainda em vinil.O disco não foi publicitado nas rádios,nem nos jornais.Havia como que uma espécie de véu,a ignorar certas coisas que Amália cantava,e a "elevar" outras,consideradas inocuas pelo regime.Contudo Marcelo Caetano,não se atrevera a fazer o mesmo que Salazar tinha feito com o Fado Peniche,em 62-Ordenar a sua retirada do mercado,e destruir todas as cópias.(Amália,nessa altura teve o primeiro impacto negativo,em relação a Salazar,figura que Amália admirava-resquicios de menina pobre,respeitadora e deferente face aos que governam!)Um dia, Amália enche-se com coragem(afinal era uma vedeta internacional!),e vai falar com Salazar;explica simplesmente ao ditador,que não compreende aquela reacção oficial,explica que se trata de um Fado de Amor,dum poeta de muita qualidade(David Mourão Ferreira). Salazar diria depois a um ministro,sobre Amália-"Adorei a criaturinha". Meses mais tarde, Salazar recua,até porque a imprensa francesa já falava no caso.Exige que Amália mude o titulo do Fado. Ficou Abandono.O disco é de novo posto na mercado,e até chega à Inglaterra,onde é platina.(Imagine-se que agora chegam umas fadistas tipo Mariza,que afirmam que o Fado é conhecido naquele país,graças a elas!Que pouca vergonha têm!). Em 1977,Amalia volta a gravar um album todo com musicas do Alain Oulman,e decide incluir este "Meu Amor é marinheiro",ignorado pelos média marcelistas.Desta vez, o acompanhamento é diferente.A carga é a mesma.Com a diferença de que já se vive sem censura. O Album-Cantigas numa lingua antiga- que inclui outros dois poemas de Alegre(As Facas,e Abril),assim como outros temas de Ary,Homem de Mello,Bernardim Ribeiro e Camões.Desta vez,Amália teve platina em Portugal,seguindo-se Japão,Holanda,Itália e França.Efectivamente, desse album,ressaltaram para a rádio dois temas-o Alfama de Ary,e este mesmo-O Meu amor é marinheiro,de Alegre.Atente-se à premonitória expressão poética "...acende um cravo na boca."-Um ano depois de Alegre a ter escrito, eclode em Portugal a Revolução dos...Cravos! Genial,não?
Afixado por: Valeria Mendez em fevereiro 29, 2004 06:49 PMValéria:
simplesmente excelente teres deixado aqui este enquadramento.
Volta sempre.
:)***
Afixado por: Sandra em fevereiro 29, 2004 07:05 PM