
(António Manuel Venda)
Catarina, se eu pudesse dar-te apenas mais um presente, seria não deixar que o medo te impedisse de seres feliz. Sim, o medo.
Quero falar-te do teu pai, do jovem escritor que conheci quando tinha a tua idade. O jovem escritor, como lhe chamava a professora de Alemão que organizou este pequeno livro de histórias, o jovem escritor que habitava um mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. Na verdade, ele ainda o habita, como se percebe por aquilo que escreve. Várias vezes, ao longo destes anos, me perguntei se o teu pai foi mesmo o grande amor da minha vida. Tenta compreender-me: aquilo que nos ensinam desde criança, a verdade de um grande amor, maior do que tudo, o verdadeiro amor, capaz de tudo vencer. Eu não sei, e possivelmente nunca o soube. Ou nunca acreditei nesse heroismo do amor. O amor verdadeiro? Tantas vezes me perguntei se não seriam verdadeiros todos os amores.
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O teu pai abria-me os portões altos e dourados do seu mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. E levava-me pela mão entre seres por vezes tão estranhos e tão assustadores, muitos deles com marcas indeléveis de obsessão.
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Eu amava o jovem escritor, o teu pai. Hoje tenho a certeza disso. Há certezas, assim como esta, que podem demorar anos até serem encontradas. Quase duas dezenas de anos, se calhar. Mas o teu pai não esperou por mim na estação dos comboios como tinha prometido. Não estava à minha espera quando regressei de uma viagem ao Norte da Alemanha, da primeira visita à tua avó desde que estava a estudar na Floresta Negra. Apenas um fim-de-semana fora, e o jovem escritor fugiu.
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Será que me entendes? Compreender-me-ás e perdoar-me-ás se eu te disser que depois de o teu pai abandonar o programa onde estudávamos os dois eu acabei por não o querer procurar? Que escolhi sair daquele mundo fantástico para to poder oferecer verdadeiramente agora, tão fascinante como quando o conheci, o jovem escritor, no interior intocado do seu mundo dos portões dourados? Porque tu, tenho a certeza, saberás entrar nesse mundo e reconhecer cada um dos seres que o habitavam. Talvez até tratá-los pelo nome. Tu saberás como pisar esse chão. Sem medo.
(António Manuel Venda- O MEDO LONGE DE TI)
Publicado por void em fevereiro 28, 2004 11:22 AM