fevereiro 27, 2004

IGNORAR A VIDA PASSADA

Daniela

As pessoas à minha volta dizem-me coisas ridículas. Falam para uma pessoa que já não existe. Não conseguem ver que mudei ou então não sabem mais como me falar. Mas tentam e tentam. E são insuportáveis. Olho em frente e não ouço nada. Cansei-me das boas intenções. De quaisquer intenções. Só quero que me deixem em paz. Sossegada. A pensar no que vou fazer. Que caminho escolher para continuar, agora que decidi continuar em vez de ficar parada a olhar. Provavelmente, vou deixar-me levar. Mas quero ignorar toda a vida passada. Desligo o telemóvel. Trato mal os meus amigos. Quero começar tudo de novo, sem referências de espécie alguma. No outro dia, telefonaste-me. Disseste que tinhas encontrado algo meu. Um livro, ou o que é que foi. Respondo que não era meu, que devia ser de outra gaja qualquer. Depois perguntaste como é que eu estava e desliguei-te o telefone na cara. Achas mesmo que quero ter conversinhas contigo? Trocar confidências pelo telefone? Beber café? Não preciso disso, não preciso de nada teu. Risquei-te da minha lista. O mundo é um sítio terrível para habitar. A vida é muito pior do que podia ter imaginado. Ando na rua e apetece-me apenas fazer mal às pessoas. Cortar-lhes a garganta, atropelá-las, atirar-lhes com coisas pesadas à cabeça. Indiscriminadamente. Apenas porque não as suporto mais.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM)

Publicado por void em fevereiro 27, 2004 07:40 PM
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