A professora nua na cama, ainda muito pudor no sorriso, a gratidão nos olhos sem óculos (mais pequenos), uma gratidão contrita nos olhos que descaíam para o meu corpo, para o meu pénis,
esconde o sexo penugento com uma língua de lençol, “Essa penugem grisalha, crespa...faz-me um favor e tapa também as mamas”, penso
eu à janela a fumar um cigarro, o frio da noite a lavar-me do nojo, a livrar-me do nojo, o frio desenjoa-me.
Viro-lhe as costas e sinto-lhe as unhas nas minhas nádegas, a pesarem-me as nádegas, a apertá-las com força, como o fez há bocado.
Há bocado, há coisa de uma hora, ela ao meu lado na cama, finalmente conseguiu pousar a mão na minha perna, na virilha, a mão verde de veias, as unhas tratadas com o mesmo esmero da laca no cabelo, “Foste ao cabeleireiro antes de eu chegar não foi, velha? Foste pôr-te boneca para mim, não foi? Puseste essa saia justa ridícula, essa blusa larga a disfarçar o peito descaído, pintaste-te mais do que é costume. Eu reparei nisso logo que entrei. Julgaste que enlouqueceste de vez e aproveitaste a impunidade da loucura. O baton mais carregado do que o costume. Consigo imaginar-te pôr o baton, os dedos a tremerem: a loucura ainda não te chegou aos dedos, pois não?”
A mão na minha perna, a tremer, fria, “Parece-te que o sangue fugiu para as orelhas não é, velha?”, o sorriso esmorece-lhe, a aliviar a pressão da minha perna, “Estás a arrepender-te. O sangue levou a loucura com ele, não é? Eu sinto-te tremer desde os sapatinhos risíveis até à ponta dos pelos do buço (que a cabeleireira alourou hoje de manhã, com certeza)”. Olho para ela mas só encontro o cocuruto, o seu cabelo arrebicado, “Baixaste a cabeça e agora vais começar a chorar...A mão a fugir boneca? Eu trato-te da saúde, deixa estar”.
Pego-lhe na mão (fria) e coloco-a no volume das minhas calças.
- Pode mexer.
Mas ela não mexe. Paralisou.
“Ah, queres ajuda, hã?”
Passo-lhe uma mão pelas costas, sinto as saliências asquerosas das vértebras, imagino-as esborcinadas, calcárias, parece-me o dorso de um cão esfaimado, africano.
Ela contrai-se:
- Não, Diogo – guincha (carrega demasiado no “i”, detesto quando ela carrega demasiado no “i”, «Diogo»).
- Porquê? – e cinjo-lhe as ancas ossudas com firmeza - Porquê?
“boneca”
Os espasmos cadenciados do choro que sai em ganidos pela garganta, um esgar ranhoso de choro, aquela voz cavernosa de velha.
Sussurra:
- Não, Diogo, não...
Puxo-a para mim. Agarro na mão morta que tem esquecida sobre o meu sexo e começo a acariciá-lo com ela. A professora não reage.
- Porquê, hã? Não me ama?
(Aqui tive de morder os lábios para evitar um ataque de riso)
- Não me ama?
O choro intensifica-se.
Subitamente, enclavinho-lhe as mãos nos ombros, apertando-os:
- Olhe...olhe para mim e diga que não me ama!
Volto a morder os lábios.
Ela a encolher-se.
Abano-a.
- Vá, diga que não me ama!
- Não me peças uma coisas dessas, Diogo...
Agarro-lhe a cabeça com as duas mãos e beijo-a nos lábios. Abro-lhe a boca com a língua. Debruço-me até ela se deitar de costas.
Beijo-a com violência, simulando sofreguidão. Respiro ofegantemente pelo nariz. A minha língua como uma turbina, uma cobra insinuante, a dela começa a ganhar vida.
“Nunca tiveste outro homem em cima de ti, pois não? Nenhuma facada no casamento!”. Afasto-me um pouco e aprecio a imagem: A cara dela é uma careta de rugas, os olhos cerradíssimos, “Nem te atreves a abrir os olhos, não é, boneca?”
os óculos tortos
Se ela olhasse agora, veria o meu sorriso afiado.
Começo a despir a minha camisa
- Diga o que disserem, para mim você é linda, ouviu?
Em resposta a isto ela solta um soluço de choro, que ao tentar reprimir sai-lhe pelo nariz numa bola de ranho.
Atiro a camisa por cima do ombro, pego-lhe nas mãos perdidas pelos lençóis e passo-as pelo meu peito. Depois, com as minhas, envolvo-lhe os seios flácidos sob o soutien forte e começo a agitá-los num arremedo de carícia.
- Para mim é linda.
Ela suspira, afaga-me os peitorais. “Gostas do músculo, não é? Dantes não havia disto.”
- Linda – repito num sussurro – linda.
Debruço-me novamente sobre ela. Beijo-lhe o pescoço e o colo enquanto lhe vou desabotoando a blusa. (pele engelhada e fria, com um perfume jovem, deve ser da filha).
A professora abraça-me, arranhando-me as costas.
Interrompo o trabalho na blusa e puxo-lhe a saia para cima, oiço o tecido protestar um rasgo, deito-me entre as suas pernas.
Agora desabotoo-lhe a blusa e inicio o movimento sexual. Ela responde imediatamente:
“olha-me a velha a excitar-se!”
Rasgo o resto dos botões, livro-me da blusa. Levanto-lhe o torso e tiro o soutien. As mamas, dois repolhos de pele com pomos castanhos aureolados de alguns pêlos grossos.
- Linda.
Lambo-os, abocanho-os, mordo-os, ela geme, pálpebras descidas, só. Suspira. Uma lágrima rola dividindo-se logo num delta de rugas.
Desço para a barriga, titilando com a língua, desço desço desço, até à penugem do umbigo que antecipa o ninho áspero mais abaixo. Detenho-me por ali, desenhando regueiros de saliva enquanto lhe massajo as pernas – a fricção do nylon dos colans.
A barriga palpita em arrepios que lhe endurecem a pele e os pelos. Lubrifico a língua que entretanto se me secou. O seu sexo a chamar-me num movimento ritmado de bacia. As mãos dela surgem a desabotoar a saia e a descer o fecho. “´Tás com uma fomeca. Já te trato da saúde, deixa estar...”
- Diogo, Diogo – a voz fremente, aflautada, suplicante.
moving forward, moving forward
algas podres na vazante
mexilhões expostos
amo-te, ai ai ai
mais tarde tornou-se afoita, sedenta, o sangue espalhado por todo o corpo, os olhos abertos. Se eu lhe perguntasse:
- Que idade tem?
Ela imediatamente:
- Vinte, vinte – entre a malha dos cabelos e os lábios colados à minha barriga.
Ardo o cigarro, ofereço o fumo à misericórdia do frio, do vento, à nesga de céu que entra pela esquadria dos prédios. A professora nua
“Cubra-me as mamas, já agora. Já sei que tem frio, os seus mamilos não têm de mo dizer constantemente”.
na cama
- Vens?
O sorriso apologético
Ouço o ruído do elevador lá fora e principio a vestir-me.
Atiro o cigarro para o abismo eterno da cidade.
- Onde vais? – “Pode acrescentar o ‘meu querido’, que não me importo”.
Não respondo.
- Onde vais, meu querido? – “deve ter-me lido os pensamentos”.
- Vou abrir a porta ao seu marido.
- O quê?
Umas chaves na fechadura.
- Afinal ele traz a chave.
- Mas...
“Tomei a liberdade de lhe fazer um telefonema antes de vir para cá, provavelmente na altura em que você punha base nas rugas”.
Dobro as mangas da camisa e vou a sair do quarto, quando a porta da rua se abre violentamente e entra para o corredor um vulto pequeno, de calva a brilhar rudimentos de chuva, com uma gabardina comprida. Dirige-se a mim. Não lhe distingo as feições, ocultas pela minha sombra. Passo por ele, esparramando-o contra a parede (um quadro cai).
- Saia-me da frente!! – grito.
Fecho a porta atrás de mim. Lá dentro, o homenzinho solta um uivo longo e demente.
“Vai matá-la”.
(André Conde Morais- Inédito)
Publicado por void em fevereiro 24, 2004 05:44 PMcontinua a escrever assim
vagabundos da diferença,
+++
Obrigado pela caridadezinha!!!
Afixado por: André em fevereiro 25, 2004 12:09 PMGood Lord... estas tuas descidas ao abismo... Terrífico. É impossível gostar muito do texto, pelo seu teor excessivamente gráfico (é um elogio). Não te esqueças é que que quando olhas para o abismo, o abismo também olha para ti...
Afixado por: em fevereiro 27, 2004 03:46 PM