7 da manhã,
o despertador toca freneticamente,
gesticula movimentos,
irrita-me,
acorda-me...
levanto-me penosamente,
como um morto da cova,
num acto mecânico,
automático,
sem vida.
Fico paralisado perante a o reorganizar dormente da consciência....
Tenho que me vestir,
sair,
retornar à chamada realidade,
à brutal repetição do quotidiano,
à vida.
Esfrego a cara,
esbofeteio-me,
meto-me no chuveiro para acordar,
para recuperar um pouco de sanidade.
Saio de casa a correr,
chove.
É um dia igual a tantos dias.
É igual ao de ontem,
igual ao de amanha,
igual ao de sempre...
A caminho do emprego deparo-me com o primeiro vislumbrar da realidade,
filas intermináveis de carros iguais,
com caras iguais,
...olhares vagos
em transe,
alienados de tudo,
perdidos algures entre o sono e o sentido de responsabilidade...
... cegos,
como insectos rastejantes,
formigas...
obrando por um objectivo comum e abstracto
que realmente muitos poucos conhecem,
arrastando-se mecanicamente,
seguindo um trilho químico,
um padrão pré determinado,
um destino,
uma farsa.
Uma grande, gigantesca colmeia,
onde cada qual tem a sua função definida,
pré estabelecida...
e como insectos,
a massa humana deslocava-se,
acéfala,
mentecapta,
totalmente desprovida de vontade,
de pensamento.
Como bonecos de madeira,
fantoches
manobrados por milhões de fios invisíveis,
um fio para cada gesto:
um sorriso,
um aceno,
um simples pestanejar...
...controlado por alguém
por algo...
neste grande pequeno palco
sem plateia...
[Excerto do 2º capítulo de PACTO, livro de poesia fantástica, que se encontra a ser escrito por Nuno Branco. Mais uma vez o nosso agradecimento pela disponibilização deste trabalho.]
Sem dúvida, Nuno, que consegues dar uma excelente "visão fantástica" de uma realidade quotidiana. Quem vive e/ou trabalha nas chamadas grandes cidades é com isto que se depara. Costumo dizer que somos pessoas "burocratizadas" que, mecanicamente, e perdendo o sentido da sua essência, assim vivem diariamente
Viveremos?
Teremos ainda a suficiente capacidade para, neste cenário, encontrar um espaço para a evasão?
Não lhe vou chamar nenhuma das coisas que sugere. Vou antes dizer-lhe que gosto muito do seu blog e que nunca me tinha apercebido de que era tão bom.
É engraçado como a dor nos inspira...
Assim sendo, Xupacabras, volta mais vezes e deixa a tua marca. Ah, já agora: não nos trates por "você", que nós não gostamos. ;)
Afixado por: Sandra em janeiro 31, 2004 05:46 PMAdmiro de veras a poesia do Nuno; a sua escrita denota uma grande sensibilidade, e um imenso amor pela vida exacerbado até ao mais "intimo" pormenor...
Sandra, gostei do blog, aliás, não é primeira vez que cá venho, nem será a última... jinhos
Concordo com o que dizes sobre a Poesia do Nuno, Teresa. A sua prosa também é muito interessante.
Quanto ao blog, obrigada. Sim, eu já sei andaste por cá. Eu fixo todos aqueles que nos visitam.
Quanto ao teu blog, também o costumo visitar com regularidade. Apresentas abordagens muito interessante e o ambiente é muito...místico. Sabe bem.
:)
Afixado por: Sandra em janeiro 31, 2004 06:19 PMNão é a primeira vez que aqui venho, mas hoje, especialmente, para deixar um abraço ao Nuno, que já é um amigo. E outro para a Sandra.
:) jinhos
Afixado por: Guida em fevereiro 1, 2004 11:34 AMNo que a mim respeita, obrigada pelo abraço, Guida. E vai aparecendo por aqui.
:)**
Afixado por: Sandra em fevereiro 1, 2004 01:05 PM