
(Jacinto Lucas Pires)
O nosso primeiro beijo foi na estação, num dia de Inverno, era como se estivéssemos dentro de um filme antigo. Nesse mesmo dia arranjaste um quarto perto dali, um daqueles quartos sinistros para onde os homens levam as prostitutas, e eu repetia para dentro que não estava a fazer nada de mal, nada de mal, não recebia dinheiro como as outras, nada de mal. Então a tua carne entrou na minha carne. E foi tudo sem palavras, sem promessas, tudo feito apenas de silêncios, beijos mínimos, o coração cego. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Atravessavas a minha noite de sombras fundas como se regressasses a casa, a paisagem vazia do meu desejo, o meu corpo de árvores de braços cortados. E, apesar das coisas serem assim, sem cores, muito de passagem, nunca tinha sido feliz daquela maneira. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Ao longo de um ano, ou quase, vivemos para aquele quarto, pelo menos eu, ou antes, vivemos aquele quarto, vivi aquele quarto, não sei se era amor aquilo, não sei se foi. Quando dava para inventar uma hora, subíamos a escada, fechávamos a porta, misturávamos os nossos cheiros, as nossas não-vozes, acontecíamos iguais a vultos num espelho, separávamo-nos, "até quando", tínhamos combinado nunca dizer até amanhã. Pois podia não haver amanhã. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro.
(Jacinto Lucas Pires- PARA AVERIGUAR DO SEU GRAU DE PUREZA)