
São 6:30.Despeço-me e parto.
Chove interminavelmente e sinto-me cansada. O guarda-chuva trava a chuvada de bater no rosto mas não é essa dor que temo. Afasto-me daqueles que seguem caminho para casa e envolvo-me nos meus atrapalhados pensamentos. Costumo aproveitar a minha pródiga solidão, o silêncio no retorno a casa, mas não desta vez.
Nem triste, nem eufórica.
Vazia.
Um sentimento de vazio apodera-se de meu corpo, da alma, perturbando o ambiente.
Quis ter alguém a meu lado. Alguém na partilha da luta contra a chuva, os rostos ocultos nas sombras, as vozes que retumbam no vazio.
Alguém que atenuasse o silêncio. O silêncio que os gritos de chuva cicatrizam em mim. Um ombro que elevasse na sua mão o guarda-chuva como sua espada, que rasgaria os céus da multidão, dos pesadelos horrendos que alimentam os cantos da cidade, e clamasse vitória. Que me desenraizasse do vazio, tal mão salvadora num abismo.
Alguém que fosse vulto. Que olhasse os gestos de ritmos pelos meus olhos e que ouvisse com os meus ouvidos o que ainda não aprendi a escutar. Alguém que se encontrasse nos meus passos, os passos incertos e vagos de menina perdida.
Alguém que escolhesse as palavras, que não as minhas, e que as falasse (que as gritasse!) ou as silenciasse no silêncio que é pintado pela compreensão e da ausência do real.
A chuva continua a morrer.
Pensei nesse anjo mundo mas não surdo que veria pelos meus olhos a luz que me foi oculta.
Um amigo aparece e acompanha-me a casa.
Não queria tais palavras em mim.
Descobri que caminho no meu trilho de meditações, no silêncio que não desejo ser roubado por ninguém.
O meu silêncio. O silêncio que observa, que esboça e que me ouve.
Enquanto lia, quis comentar, mas não fui capaz.
Fiquei escutando o silêncio da chuva que bate na minha janela.
Doce afago, os pingos de chuva na vidraça,...melodia encantadora!
Afixado por: Roxy em janeiro 27, 2004 02:33 PMExcelente texto! Passo fundamental (e intermédio), sem dúvida, na senda do caminho para um possível Conto.
Quanto a "Um amigo" de que falas, e que eu sei quem é, que te continue a servir (e cada vez mais) como luz, referência ou suporte para construções textuais sempre melhoradas.
Para ele certamente não será difícil fazê-lo, na medida em que na relação "cronologia individual-escrita" teve um percurso muito parecido com o teu.
Só posso sinceramente desejar, que continuem a aprofundar contactos.
:)**** (para os dois)
Afixado por: Sandra em janeiro 27, 2004 10:19 PMAi, junta-me aos teus votivos desejos, Sandra, que eu desejo o mesmo para eles!!!
Afixado por: André em janeiro 27, 2004 10:36 PMNos mesmos termos que eu, não, com toda a certeza!
E que tal mostrarmos a nossa suposta superioridade ou a nossa suposta distinção, comentando conteúdos?
;)
Afixado por: Sandra em janeiro 27, 2004 10:58 PMSuposta? Mas ainda restam dúvidas?
Afixado por: André em janeiro 27, 2004 11:24 PMMeus amigos, eu na rua sou confundido com Deus!! Suposta?! Isto que...!
Afixado por: André em janeiro 27, 2004 11:33 PM