janeiro 26, 2004

AMOR ENTRE MULHERES- 1


(Pintura de Rosella Mocerino)

Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para as barrigas das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como uma determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido de que uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. (...)
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. (...)
Fazia frio. Caminhámos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. (...)
Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente (...)
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.

(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

Publicado por void em janeiro 26, 2004 05:26 PM
Comentários

Uma nota inicial para registar a qualidade de um livro que, muitíssimo bem, apresenta o início e o desenvolvimento de uma relação amorosa onde as protagonistas são duas mulheres.
O 1º excerto apresentado (de outros que serão editados) traduz, sem qualquer sombra para dúvidas, a normalidade do início de uma atracção e de um desejo de estar com. Tudo é registado com uma naturalidade absolutamente fascinante fazendo reflectir que, de facto, pensar diferente não pode deixar de ser constrangedor e inibidor (ou mesmo, castrante) no âmbito daquilo que é uma vivência amorosa; no fundo a vivência da Sexualidade.
Por outro lado o agarrar, para tratamento, de particularidades da vida pessoal, inequivocamente consentâneas/paralelas com o surgimento de (novos) sentimentos e com a vivência plena dos mesmos.

Afixado por: Sandra em janeiro 26, 2004 06:49 PM

e depois foram para casa e fizeram amor nesse desconhecimento de se amarem. o amor entre duas mulheres é muito belo. eu pessoalmente fico comovido quando duas mulheres se amam.

Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 26, 2004 09:28 PM

Tem calma, Fernando. Não avances já com a história. Ou melhor, não antecipes os acontecimentos. Não sobreponhas cenários. Deixa sentir as palavras, as frases e os momentos que elas traduzem.
O que por aí vem será alvo de edição, mas os objectivos são claros: apreciar o texto literário, ir acompanhando sentimentos e o seu exteriorizar, assim como perceber os problemas que com todas as situações se vão cruzando.
Este 1º excerto aborda já três questões muito importantes e absolutamente reais: uma mulher que nunca tinha tido determinado tipo de sentimentos em relação a outra, um casamento e um divórcio, relações efémeras com homens. Ora isto são aspectos que convém atender. Há que pensar, pois, em todas estas vertentes e nas relações e/ou sequências entre si estabelecidas. O que é que propicia o quê e de que forma. O que é que faz avançar. O que é que retarda. Enfim...
Quanto à comoção, penso que não terá necessariamente que existir. O que deve ser uma realidade é a forma natural de encarar como essa possivel relação amorosa acontece (ou poderá acontecer) e se desenrola (ou poderá desenrolar).

Afixado por: Sandra em janeiro 26, 2004 10:00 PM

Acho que o texto tem valor. Mas deparei-me com algumas questões relativas a ele. Vamos ver se consigo ser clara.
Há a cena da percepção da outra, cena plástica, quase uma sequência cinematográfica. Como nos filmes ( perdoem-me ) americanos que aqui chamamos de "água com açucar" em que "repentinamente" a outra é notada e o caminho entre as duas percorrido por uma delas no mais puro impulso. Não sei,não me ´parece fazer sentido.
Romântico, sem dúvida. Mas é como se algo faltasse. Há a percepção de um sentimento doferente em relação a alguém, ou de uma atração.Daí a descrição do atravessar a rua como algo que mudaria a vida. E a contradição do "mal me apercebia ". E "do que estava prestes a acontecer" .Como se fosse um pulo direto para a cama. Ainda não sei, parece-me uma visão masculina, isto. Sem diálogos, como se apenas o corpo importasse.
E a outra? Afora ser o corpo surpreendente, o que ou quem era? Sujeito passivo? Que aceita caminhar ao lado da estranha e uma bebida na sua casa? E a cama é o destino imediato?
Gosto do texto, mas acho que nele falta algo.
Que a surpresa do desejo é bem descrita. Mas que a articulação do encontro, falta.
É essa surpresa e a articulação que nos permitirão pensar os meandros desses acontecimentos , se podemos dizer assim. Como se salta de relações heterosexuais para as homosexuais em pessoas que nunca haviam pensado nisso ( sic).
( perdoem isso foi longo demais)

Afixado por: eugênia em janeiro 28, 2004 07:27 AM

heterossexuais e homossexuais, perdoem-me por favor.
eugênia

Afixado por: eugênia em janeiro 28, 2004 07:30 AM

OK, Eugénia. Só te peço para aguardares mais alguns excertos a editar, os quais certamente darão uma ideia mais completa do desenvolvimento da relação. Acompanhemos, pois.
Já agora, quanto ao autor do livro (e de acordo com apresentação nele feita): nasceu em 1972, filho de pai checo-alemão e mãe judia. Vive em Amesterdão e é um dos mais conhecidos escritores holandeses contemporâneos.

Afixado por: Sandra em janeiro 28, 2004 06:06 PM

adorei o comentario,quando se ama verdadeiramente nada e impossivel ate esse amor tão belo

Afixado por: camila t.dos santos em agosto 11, 2004 06:51 PM