janeiro 25, 2004

UM VALOR SUPREMO

Eu tinha vinte e poucos anos e, para mim, dizer que o amor se reduz a uma linguagem de pele e o sexo a uma simples terminologia era quase um sacrilégio. Tinha a idade em que o amor, seja lá isso o que vier a ser, é um valor supremo de um horizonte onde só se divisa a felicidade. Dizia a palavra, ou murmurava-a por dentro do coração e era como se tudo se iluminasse na aurora de um futuro inextinguível, de uma beatitude alcançável, ou, pelo menos, de um objectivo estimulante pelo qual valia a pena lutar, antes de tudo, apesar de tudo.
Com o tempo, descobri que esse horizonte, se existe, é eternamente móvel e que, além disso, quando a vista vai fraquejando, a sua perspectiva se torna cada vez mais remota. Mas, nessa altura, eu acreditava na pureza infinita do amor, na sua concreta substância...

(António Mega Ferreira- AMOR)

Publicado por void em janeiro 25, 2004 09:25 AM
Comentários

na sua concreta substância... gostei.

Afixado por: Alexandre em janeiro 25, 2004 03:15 PM

... donde se pode depreender que este concretismo pode deixar de existir. Ou melhor, de ser percebido, vivido, sentido.

Afixado por: Sandra em janeiro 25, 2004 03:19 PM

Muito bom! :)

Afixado por: Morgatha em janeiro 25, 2004 06:46 PM

Pode deixar de ser percebido e sentido, mas há uma luta a travar: a luta contra a desilusão que é o conformismo ao que uma idade, uma situação, uma fase da vida pensa da outra.

Afixado por: Miss Kafka em janeiro 25, 2004 07:17 PM

Morgatha:
bom ver-te por aqui!
Bem vinda a esta casa e volta sempre. Mais uma vez: gostei do teu blog.

:)*

Afixado por: Sandra em janeiro 25, 2004 07:47 PM

Miss Kafka:
não posso deixar de concordar com o que dizes.
O Amor, qualquer que seja a idade em que é sentido (seja como continuidade, seja como algo de novo), não deve nunca deixar de ser um processo de luta, por forma a manter a sua essência, por oposição a um estado letárgico onde se verifica, apenas, a "habituação neutral" do outro.
O Amor deve, por outro lado, ser entendido, sentido e vivido como um sentimento não estático, onde a idade, precisamente, permite fazer evoluir aquele que é o seu conceito, transformando-se este, em diferente formas de considerar o outro amado e as vivências amorosa tidas no percurso vivido conjuntamente.

Afixado por: Sandra em janeiro 25, 2004 07:54 PM

Pois eu, cuja vista começa a fraquejar, acredito na "concreta substância" do amor.Ainda que o horizonte seja móvel.E não penso que com a idade a capacidade de amar diminua. Ao contrário.
Mas não acho que lutar seja necessário, ou mesmo que nos salve. O que tem de ser será.
Creio que a idade supostamente nos devia dar a sabedoria de conhecer o modo de ter cuidados com o que sentimos.E com o que, quem amamos sente. Mas essa não é necessariamente a realidade. As pessoas chegam a uma idade maior, completamente imaturas, às vezes : ) ( muitas vezes).
Esquecem-se que o importante é ser feliz e fazer feliz.E o esquecem por coisas tão pequenas...

Afixado por: eugênia em janeiro 26, 2004 03:15 AM