Mas, antes de mais, parece-me que tenho de olhar para mim frente a frente, como nunca fiz ainda até hoje, para averiguar se alguma coisa pode ainda interessar-me, por uma semana, por um dia, por uma hora. Sim, é curioso, tanto que tenho sofrido e, sempre dominada pelo sentimento, ou mesmo pela paixão, agitando-me, vibrando, nunca espreitei lucidamente para dentro de mim (haverá, aliás, muito quem o faça?). Conheço-me eu porventura bem, para lá do que os outros me julgam, desse meu retrato de catálogo e do que eu própria estabeleci há muito que sou? Mesmo, vendo bem, sempre me recusei, não sei se por pudor se por comodidade ou por preguiça, a mergulhar a lâmpada da consciência na escuridão desordenada dos meus instintos, nos meus raros momentos de delírio...
(Urbano Tavares Rodrigues- CONTOS DA SOLIDÃO)