dezembro 31, 2003

FUGAS

Beno inventou assim tantos rostos, tantas máscaras, como quantas cidades habitou ou atravessou. Instalava-se onde as cidades com seu cheiro a mar lho permitiam, e as pessoas falassem com ele o menos possível. Evitava que as cidades e seus habitantes se habituassem demasiado à sua presença, de dia para dia mais andrógina. Fugia, e sempre continuou a acreditar que a única maneira de continuar vivo e vigilante, é fugir.
Mas nunca fugiu precipitadamente. Cada fuga era preparada com paciência e minúcia. Perdia noites e noites traçando percursos complicados num mapa. Escrevinhava notas numa agenda com os cantos das páginas ratados e sujos. Consultava rotas marítimas, horários de comboios, de barcos e aviões. E quando dava por concluído aquele trabalho de preparação, agarrava na pequena mala em couro azul, com meia dúzia de coisas inúteis dentro, e partia. Partia na direcção contrária à que planeara.

(Al Berto- LUNÁRIO)

Publicado por void em dezembro 31, 2003 05:12 PM
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