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(...) em todo o caso havia um só túnel, escuro e solitário; o meu, o túnel em que tinha transcorrido a minha infância, a minha juventude, toda a minha vida. E num desses troços transparentes do muro de pedra eu tinha visto esta rapariga e tinha acreditado ingenuamente que vinha por outro túnel paralelo ao meu, quando na realidade pertencia ao largo mundo, ao mundo sem limites dos que não vivem em túneis. (...) E então, enquanto eu avançava sempre pelo meu corredor, ela vivia lá fora a sua vida normal, a vida agitada dessa gente que vive lá fora, essa vida curiosa e absurda em que há bailes e festas e alegria e frivolidade. E às vezes sucedia que quando eu passava em frente a uma das minhas janelas ela estava esperando-me muda e silenciosa (porquê esperando-me? e porquê muda e silenciosa?); mas às vezes sucedia que ela não chegava a tempo ou se esquecia deste pobre ser encaixado, e então eu, com a cara apertada contra o muro de vidro via-a ao longe a sorrir ou a dançar despreocupadamente ou, o que era pior, não a via de todo e imaginava-a em lugares inacessíveis ou torpes. E então sentia que o meu destino era infinitamente mais solitário do que o tinha imaginado.
(Ernesto Sabato- O TÚNEL)
Publicado por void em dezembro 24, 2003 01:46 PM