Odeio os golpes com a mesma intensidade com que odeio a morte. Golpes e morte são sinónimos. Ambos são amantes do nada. O nada mora nesta casa. A casa está cheia de golpes. A toda a hora. O nada é o único intensamente amado, intensamente querido, intensamente subornado. Fica feliz com cada bater de porta, com cada olhar gélido de morte. Dantes ainda tinha um cantinho no sótão para a esperança, duas ou três palavras alegres que fugiam pelos buracos das fechaduras. Mas as portas foram esquecendo que a madeira arde no fogo e prenderam as chamas de um silêncio tenebroso, atascado na garganta, trespassado por um ferro de impotência. E o silêncio fez-se imperador da casa. Lembro-me que foi então que, sem querer, comecei a odiar. Com cada ódio ia esquecendo palavras como tesouro, amizade, respeito, esperança. E o nada entrou triunfante pelo limiar do absurdo. E a casa era toda sua. Desde então vivo prisioneira e não tenho mais direito que este ódio intenso que atravessa o silêncio, que fulmina a vida, que me corrói a cada golpe, a cada pancada de pânico, a cada iniciação à morte.
(Beatriz Dacosta- Texto publicado na revista PERIFÉRICA, nº 6, Verão de 2003).
Publicado por void em novembro 29, 2003 01:40 PM