Recordo-me de um jovem- de um homem ainda jovem- impedido de morrer pela própria morte- e talvez por erro da injustiça. (...)
Sei- sabê-lo-ei- que aquele que os Alemães já tinham na mira, não esperando sequer a ordem final, experimentou um sentimento de extraordinária beleza, uma espécie de beatude (nada, porém, que se parecesse com felicidade)- alegria soberana? O encontro da morte e da morte?
No seu lugar, não tentarei analisar este sentimento de leveza. De repente, ele era talvez invencível. Morto- imortal. Talvez o êxtase. Ou antes o sentimento de compaixão pela humanidade sofredora, a felicidade de não ser imortal nem eterno. Doravante ficou ligado à morte, por uma amizade sub-reptícia. (...)
Era isto a guerra: a vida para uns, para outros, a crueldade do assassinato.
Permanecia todavia, como no momento em que o fuzilamento estava iminente, o sentimento de leveza que não conseguirei traduzir: liberto da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade. Nem a ausência de temor e talvez já o passo/não passo para-além. Sei, imagino que este sentimento inanalisável mudou o que lhe restava da existência. Como se a morte fora dele não pudesse doravante senão embater contra a morte nele. "Estou vivo. Não, estás morto." (...)
Que importa. Apenas permanece o sentimento de leveza que é a própria morte ou, para o dizer mais precisamente, o instante da minha morte doravante sempre iminente.
(Maurice Blanchot- O INSTANTE DA MINHA MORTE)